Cérebro da Cidade Inteligente – Em um dia típico de semana, Curitiba registra aproximadamente 800 mil deslocamentos, sendo a maioria deles – cerca de 60% – realizados por automóvel. Com esse volume intenso de veículos e pedestres circulando simultaneamente, seja a pé, de ônibus, motocicleta, bicicleta ou outros modais, a formação de gargalos no trânsito torna-se praticamente inevitável.
Para enfrentar esses desafios, a Prefeitura da Capital tem contado com um aliado estratégico: o Hipervisor Urbano de Curitiba, conhecido como o “cérebro da cidade inteligente”, uma diretoria vinculada ao Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC).
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Nos últimos meses, uma série de intervenções viárias foi anunciada justamente a partir dessas análises. Um dos exemplos mais recentes é a futura trincheira no cruzamento da Avenida Prefeito Lothário Meissner com as ruas Ostoja Roguski e Alberto Twardowski, no bairro Jardim Botânico. Com investimento estimado em R$ 67 milhões, a obra permitirá a conexão direta entre as duas vias laterais, eliminando o semáforo do local e ampliando a fluidez do tráfego.
Outra intervenção já em andamento é a construção das trincheiras da Estação Vila São Pedro, na Linha Verde, entre os bairros Capão Raso e Xaxim, com custo máximo previsto de R$ 110,5 milhões. Já no trecho Sul da Linha Verde, no bairro Boqueirão, está prevista uma grande requalificação da Avenida Marechal Floriano Peixoto, a principal da cidade.
Com orçamento de R$ 173 milhões, o projeto inclui a implantação de um trinário e a construção de dois novos viadutos. Um deles ficará na Rua Anne Frank, ligando a avenida à Rua Aloísio Finzetto, facilitando o deslocamento no sentido Rebouças. O outro será construído na Rua Tenente Francisco Ferreira de Souza, em formato de “Y”, criando duas conexões no sentido Boqueirão: uma para quem vem do Centro pela Rua Escritora Lurdes Strozzi e outra para quem chega do eixo Fazendinha/Portão, pela Avenida Presidente Wenceslau Braz. Ambos ficarão paralelos ao viaduto já existente na Marechal Floriano Peixoto.
Principais gargalos
Diretor do Hipervisor de Curitiba, Oscar Schmeiske explica que a ferramenta, criada em fevereiro de 2024, foi desenvolvida para apoiar o planejamento urbano a partir do uso intensivo de dados. A plataforma reúne e cruza informações públicas, permitindo a coleta, o processamento e a distribuição de dados para a gestão em tempo real e a formulação de políticas públicas. No trânsito, isso inclui dados de radares, semáforos e contadores veiculares da própria Prefeitura, além de informações externas oriundas de câmeras públicas e privadas e de aplicativos como Waze e Google.
Segundo Schmeiske, a primeira função do Hipervisor é apontar onde estão os gargalos. “A gente vai identificando o gargalo e vai passando para a equipe de planejamento. Daí, a equipe de planejamento faz uma análise e coloca lá uma prioridade entre as obras. Na hora da prioridade, claro que entra a questão de ter recurso financeiro ou não. E a partir do momento que eles definem uma obra que vai ter recurso e que é prioritária, volta para a gente, para a gente testar a obra”, explica.
De acordo com o diretor, os entraves viários não se concentram em apenas uma região da cidade. Além das áreas já contempladas por obras anunciadas, ele aponta outros quatro pontos críticos que estão no radar do município.
“Um é no Xaxim, na continuação da Avenida Brasília, perto da Rua Francisco Derosso. Outro fica perto do Parque Barigui, na Cândido Hartmann. É um trechinho pequenininho, mas que fica parado. No Bacacheri, tem a Av. Erasto Gaertner. E entre o Bairro Alto e o Tarumã, tem um trecho um pouco pra cima da Victor Ferreira do Amaral que também é problemático”, lista Oscar.
Simulação da realidade para testar obras
Uma vez definida a prioridade e a viabilidade de uma intervenção, o projeto retorna ao Hipervisor, que passa a avaliar o impacto da obra antes de sua execução. O processo envolve a criação de modelos virtuais baseados no fluxo real de veículos.
“Para testar a obra, a gente constrói um modelo. Contamos quantos carros passam em cada sentido da via, onde eles viram, fazemos um rastreamento. Depois a gente coloca isso num software, que gera um modelo, que é como se fosse uma simulação da realidade. E nesse modelo a gente vai fazendo as alterações: uma via que era duas pistas, por exemplo, acrescentamos mais uma terceira. E o modelo, à medida que você vai fazendo as alterações, ele vai ajustando o trânsito a essas mudanças”, relata.
O diretor ressalta que, embora a simulação não garanta 100% de sucesso, ela reduz significativamente os riscos. “Não temos certeza absoluta de que vai dar certo, mas com a simulação a gente chega muito perto de uma certeza que vai dar certo, de vislumbrar como aquela obra vai ficar e impactar aquela região depois de pronta”, afirma.
Ele destaca ainda que limitações financeiras e operacionais fazem com que nem todos os gargalos sejam resolvidos simultaneamente. “Não temos fôlego financeiro para tocar todas as obras. E também, se a gente fizesse tudo de uma só vez, a gente parava a cidade, porque cada uma dessas obras causa um impacto enquanto estão em andamento.”
Por que tantas trincheiras e viadutos em construção?
O volume crescente de anúncios envolvendo viadutos e trincheiras chama a atenção, sobretudo pelo alto custo dessas estruturas. Segundo Oscar Schmeiske, porém, esse tipo de solução se torna inevitável quando o fluxo de veículos ultrapassa determinados limites.
“Até um certo volume de tráfego, a transposição em nível resolve. Você cria uma rotatória, coloca uma sinalização, e resolve o problema do trânsito naquele local. Mas quando chega num certo volume, não tem mais jeito. Aí você tem que mudar o nível de uma via para a outra. E essas obras a gente espera não ter que fazer, tenta não fazer, porque elas são muito mais caras do que uma transposição de nível. Mas sempre chega um momento em que não tem mais jeito, tem que ser isso mesmo .”
O que é o Hipervisor de Curitiba
A iniciativa começou há cerca de sete anos e foi concretizada em fevereiro de 2024, quando a plataforma entrou oficialmente em operação. O objetivo é centralizar dados do município e oferecer suporte tanto ao planejamento de políticas públicas quanto à gestão de serviços em tempo real, abrangendo diferentes áreas da administração.
“O que levou à criação do Hipervisor foi a revolução da informação. Nesse novo mundo, temos muita informação e a gente precisava duma ferramenta que permitisse analisar essa quantidade grande de dados, os big datas, as fontes complexas. E isso com dados de todas as áreas. Uma característica do Hipervisor é que a gente não analisa um assunto só no tema mais diretamente relacionado. Se o problema é de Educação, a gente vai estudar Educação, mas também vai estudar Segurança Pública, Saúde, Transporte, etc, etc. É uma interdisciplinaridade”, afirma Oscar.
Para dar conta desse trabalho, o Hipervisor conta atualmente com 12 analistas de informação, cada um especializado em uma área específica, como Saúde, Educação ou Segurança Pública. A equipe é complementada por três engenheiros de dados e três cientistas de dados, responsáveis por análises mais complexas e pelo suporte técnico aos analistas.
(Com informações de Bem Paraná)
(Foto: Reprodução/Freepik/user6933058)


