IA – A bolha da inteligência artificial está mais perto de estourar do que muitos imaginam. Essa é a avaliação de Shannon O’Neil, vice-presidente sênior do think tank Council on Foreign Relations, em coluna publicada nesta quinta-feira (29) na Folha de S.Paulo, na qual ela argumenta que o entusiasmo em torno da IA começa a se chocar com limites econômicos, políticos e estruturais cada vez mais evidentes.
Segundo a autora, a inteligência artificial tem sido um dos principais motores do S&P 500 e da economia americana nos últimos anos. Um pequeno grupo de grandes empresas domina o setor, e seus CEOs passaram a ser tratados como celebridades, com investidores e mercados reagindo a cada declaração pública e a cada balanço financeiro. Nesse ambiente, a fronteira entre expectativas realistas e euforia excessiva ficou difusa.
LEIA: Governo avalia estratégias para avançar com projeto que dê fim à escala 6×1
Para O’Neil, no entanto, os fatores que podem furar essa bolha não são exatamente aqueles mais citados, como financiamento circular, endividamento crescente ou mesmo a concorrência chinesa. O risco maior estaria em elementos menos óbvios, ligados às próprias políticas adotadas pelo governo dos Estados Unidos: tarifas comerciais elevadas e uma política migratória mais restritiva, que tendem a encarecer e desacelerar a expansão da infraestrutura necessária para sustentar a IA.
Ela lembra que o presidente Donald Trump prometeu fazer “o que fosse preciso” para garantir a liderança americana em inteligência artificial, mobilizando o governo federal e instrumentos clássicos de política industrial. Nesse contexto, a administração passou a liberar terras federais para a construção de data centers e usinas de energia, acelerar processos de licenciamento e até assumir participações acionárias em empresas estratégicas, como a fabricante de chips Intel, a startup de litografia x-Light e companhias ligadas a minerais críticos para a produção de eletrônicos.
Ao mesmo tempo, o governo busca contornar regulações estaduais sobre IA e utiliza poderes executivos para reduzir exigências e fiscalização. Também isentou de tarifas de importação itens como servidores, semicondutores e placas de circuito – componentes que representam cerca de um terço do custo de um data center –, embora materiais de construção continuem sujeitos a impostos elevados. Para O’Neil, esse conjunto de políticas acaba favorecendo o setor de IA em detrimento da indústria tradicional e de outras áreas da economia, alimentando ainda mais o volume de investimentos anunciados.
O resultado é uma corrida bilionária por infraestrutura. Grandes empresas de tecnologia estão investindo centenas de bilhões de dólares em servidores, cabos e roteadores instalados em enormes data centers, projetados para sustentar modelos cada vez mais complexos. A expectativa é que a capacidade computacional instalada pelo setor ao menos dobre até 2030.
Essa expansão, porém, traz um custo crescente. Com a multiplicação dos data centers, dispara também a demanda por eletricidade. Estimativas da consultoria McKinsey indicam que as novas instalações previstas até 2030 consumirão mais de 600 terawatts-hora por ano – o suficiente para abastecer quase 60 milhões de residências. A pressão sobre concessionárias de energia tem elevado os custos de construção, em um cenário no qual os preços de transformadores, disjuntores e equipamentos de transmissão já vinham subindo após anos de baixa demanda.
As tarifas comerciais adotadas a partir de 2025 agravaram ainda mais esse quadro. Impostos de até 50% sobre aço, alumínio e fios de cobre atingem diretamente transformadores, linhas e torres de transmissão. Já as baterias de armazenamento usadas pelas concessionárias, em grande parte importadas da China, enfrentam alíquotas ainda mais altas. Para O’Neil, esse encarecimento estrutural mina a rentabilidade dos investimentos bilionários já feitos pelas empresas de IA.
Outro obstáculo relevante apontado pela colunista é a política migratória. Executivos do setor alertam para a escassez de cientistas, pesquisadores e engenheiros altamente qualificados, diante das restrições crescentes e do aumento de custos para obtenção de vistos H-1B. Mas, segundo O’Neil, a vulnerabilidade começa antes mesmo disso, nos canteiros de obras.
Cerca de um quarto dos trabalhadores da construção civil nos Estados Unidos é estrangeiro, e aproximadamente um em cada sete não tem documentação. Com fronteiras mais rígidas, operações intensificadas do ICE e aumento das deportações, tornou-se cada vez mais difícil encontrar mão de obra disponível – ou equipes completas – em diversas regiões do país. Pesquisas com empreiteiros mostram que mais de 80% enfrentam vagas em aberto, hoje a principal causa de atrasos em projetos, mesmo com a desaceleração de outros segmentos da construção.
Esse cenário afeta diretamente as empresas de IA e de data centers. Os enormes volumes de capital já comprometidos rendem menos do que o esperado, e a tendência, segundo O’Neil, é de piora a partir de 2026. Com a aproximação das eleições de meio de mandato e a crescente preocupação com a acessibilidade à moradia, a Casa Branca passou a direcionar atenção ao setor habitacional.
Embora as propostas iniciais se concentrem na redução de taxas hipotecárias e na limitação da compra de imóveis por investidores institucionais, a expectativa é de um estímulo mais forte à construção de moradias. O secretário de Comércio, Howard Lutnick, já se reuniu com grandes construtoras para discutir as prioridades do governo. Isso deve intensificar a disputa por um contingente cada vez mais escasso de eletricistas, técnicos de climatização, soldadores e outros profissionais especializados.
Para a autora, o governo americano precisa olhar para esses trabalhadores com a mesma atenção dedicada a engenheiros e cientistas. Programas de treinamento e estágios podem ajudar no longo prazo, mas não resolvem a escassez imediata. Entre as alternativas apontadas estão a ampliação dos vistos H-2B, a aceleração da concessão de vistos EB-3 para trabalhadores da construção civil e a criação de um programa temporário específico para o setor.
Shannon O’Neil conclui que o futuro da inteligência artificial dependerá de sua capacidade de justificar os investimentos gigantescos já realizados. Mesmo que a tecnologia transforme amplos setores da economia, serão os custos e os prazos que definirão quem realmente se beneficia – e em que momento. Nesse contexto, as tarifas comerciais e as políticas migratórias do governo Trump aparecem, hoje, como fatores centrais que limitam o avanço das empresas e dos modelos de IA nos Estados Unidos.
(Com informações de Bloomberg, via Folha de S.Paulo)
(Foto: Reprodução/Freepik)


