Demissões por justa – A demissão por justa causa, punição mais grave prevista na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), atingiu o maior patamar da série histórica em 2025. O número de desligamentos nessa modalidade cresceu quase 200% em relação a 2019, período anterior à pandemia.
Dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que foram registrados 638,7 mil desligamentos por justa causa no ano passado, o maior volume desde 2004, quando começa a série histórica. Apenas em janeiro deste ano, ocorreram 65,3 mil casos, alta de 22% em relação ao mesmo mês de 2024.
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A punição representou 2,6% do total de términos de contrato em 2025, também a maior proporção já registrada, segundo levantamento do economista Bruno Imaizumi.
Segundo especialistas, o aumento ocorre em meio a transformações recentes nas relações de trabalho. Entre os fatores apontados estão alta rotatividade no mercado, maior monitoramento digital de trabalhadores, retorno ao regime presencial após a pandemia e mudanças geracionais na forma de encarar o trabalho.
A redução da taxa de desemprego também aparece como um elemento indireto nesse cenário. De acordo com o IBGE, o índice caiu de 14,9% em março de 2021 para 5,4% no trimestre encerrado em janeiro.
Imaizumi afirma que a justa causa é aplicada em situações graves, como desonestidade, agressão e abandono de emprego, mas também pode ocorrer em casos considerados menos claros, como atrasos frequentes, faltas injustificadas ou descumprimento de regras internas. “E os funcionários menos qualificados têm uma probabilidade de erro maior”, afirma.
Ao mesmo tempo, trabalhadores passaram a deixar seus empregos com mais frequência. Dados do Caged mostram que mais de 36% dos desligamentos em 2025 ocorreram a pedido do próprio empregado, indicador associado à maior rotatividade.
“Existe um cenário que indica a incompatibilidade atual da relação entre empregador e empregado. É como se os dois lados estivessem dizendo que essa relação não está funcionando direito”, diz Alexandre Pellaes, pesquisador em tendências para o futuro do trabalho e professor da Fundação Dom Cabral.
Quando ocorre a justa causa, o trabalhador perde diversos direitos previstos em outras formas de demissão. Entre eles estão o saque do FGTS, a multa de 40% sobre o fundo, o 13º salário proporcional, férias proporcionais e o acesso ao seguro-desemprego.
Causas
Os dados indicam que esse tipo de desligamento é mais frequente em setores com grande volume de contratações e postos de trabalho de baixos salários.
Em hipermercados, por exemplo, a justa causa representou 10,7% das demissões em dezembro de 2025. Outras atividades com alta proporção são abate de aves em frigoríficos (9,6%) e atendimento em call centers (9%).
Trabalho presencial
Nos empregos de escritório, especialistas apontam que o aumento também está relacionado ao fim de regimes remotos e híbridos adotados durante a pandemia. O retorno ao trabalho presencial restabeleceu controles mais rígidos de rotina, como horários de entrada, duração do almoço e permanência física no posto de trabalho, o que pode gerar conflitos.
“Após a pandemia, passou-se a buscar mais qualidade de vida, mais propósito, mais limites de respeito e de tempo”, diz Pellaes. “As pessoas não estão mais tão propensas a aceitar práticas que aceitavam antes da pandemia.”
Monitoramento constante
Outro fator citado é o uso crescente de sistemas de monitoramento digital, que registram atividades como tempo de uso do computador e acesso a redes sociais durante o expediente.
“Esse aumento de demissões por justa causa está muito relacionado à hipervigilância dos empregadores em relação aos trabalhadores”, afirma Mauro Menezes, advogado trabalhista. “Os meios tecnológicos proporcionam às empresas uma lente de monitoramento muito mais potente e detalhada.”
Segundo ele, essa coleta de dados também mudou a forma como as punições são aplicadas. Situações que antes dependiam da observação de supervisores agora podem ser registradas em relatórios e usadas como evidência em processos disciplinares.
Menezes acrescenta que a justa causa também tem sido aplicada em casos de assédio moral e sexual no ambiente de trabalho. “Antes as vítimas não se enxergavam como vítimas, e isso mudou. São elementos que podem levar à justa causa.”
Diferenças entre gerações
Especialistas também citam a entrada da geração Z no mercado de trabalho como um fator de mudança nas relações profissionais. Segundo Imaizumi, trabalhadores mais jovens tendem a valorizar equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, saúde mental e limites para tarefas extras não remuneradas.
Dados do Caged indicam que, em dezembro de 2025, a taxa de justa causa foi de 2,8% entre trabalhadores de 18 a 24 anos e 3% entre os de 25 a 29 anos. Entre pessoas de 40 a 49 anos, o índice foi de 2,45%.
“Quando entra uma geração mais nova, mais consciente e combativa, no sentido de questionar práticas de forma incisiva, pode haver a interpretação das organizações de que esse questionamento é uma insubordinação”, afirma Pellaes.
Questionamento na Justiça
Especialistas lembram ainda que muitas demissões por justa causa acabam sendo contestadas na Justiça e, em alguns casos, revertidas.
“Como a regra processual é a de que é a empresa que deve provar que houve justa causa, e não o empregado provar que não houve, a empresa que se vê nestas condições tem maiores chances de perder a justa causa”, diz o advogado trabalhista Horácio Conde.
Segundo ele, nos últimos anos empresas passaram a formalizar códigos de conduta, canais de denúncia e auditorias internas, o que também amplia a possibilidade de identificação de infrações e abertura de processos disciplinares.
(Com informações de Folha de S. Paulo)
(Foto: Reprodução/Freepik/Drazen Zigic)


