IA – As demissões em massa voltaram a ganhar espaço nas grandes empresas de tecnologia – mas o discurso que acompanha esses cortes mudou significativamente nos últimos meses. Se antes executivos justificavam reduções de equipe com argumentos como excesso de contratações ou necessidade de eficiência, agora a inteligência artificial passou a ocupar o centro da narrativa.
Companhias como Google, Amazon e Meta, além de nomes menores do setor, vêm relacionando diretamente os cortes ao avanço das ferramentas baseadas em IA. O impacto também acontece em outras áreas: recentemente, os CEOs do Walmart e da Coca-Cola se demitiram usando a tecnologia como justificativa.
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A ideia de que a IA permite fazer mais com menos pessoas tem sido repercutida por líderes do setor. Mark Zuckerberg, CEO da Meta, afirmou no início do ano que 2026 deve marcar uma transformação profunda na forma como o trabalho é realizado. Desde então, a empresa realizou novas rodadas de demissões, enquanto mantém contratações restritas a áreas consideradas estratégicas.
Em outras companhias, o discurso segue linha semelhante. Jack Dorsey, ex-CEO do Twitter e executivo da Block, foi ainda mais direto. Ele afirmou que ferramentas de IA estão redefinindo o que significa operar uma empresa e que equipes menores podem ser mais produtivas com esse suporte tecnológico.
Especialistas consultados pela BBC apontam que a IA tem sido usada como justificativa para suavizar a percepção pública em relação às demissões.
Ao mesmo tempo, há mudanças concretas por trás desse discurso: ferramentas capazes de gerar código, automatizar tarefas e apoiar decisões já estão sendo incorporadas em larga escala. Em algumas companhias, uma parcela significativa do desenvolvimento de software já conta com participação direta de sistemas de IA.
Esse avanço levanta preocupações sobre o impacto em funções tradicionalmente valorizadas, como engenharia de software e programação, que passam a ser parcialmente automatizadas.
Também há uma mudança de mentalidade entre executivos. Segundo Anne Hoecker, sócia da Bain que lidera a área de tecnologia da consultoria, executivos começaram a perceber que os ganhos de produtividade são suficientes para sustentar operações com menos funcionários.
Demissões em massa também têm a ver com pressão por custos
Além da evolução tecnológica, há outro fator relevante por trás das demissões: o aumento dos investimentos em inteligência artificial.
As maiores empresas do setor devem investir, juntas, cerca de US$ 650 bilhões em IA nos próximos anos. Diante desse cenário, reduzir despesas operacionais (especialmente com funcionários) tornou-se uma forma de equilibrar as contas.
A Amazon, por exemplo, sinalizou que pretende investir centenas de bilhões de dólares na área, ao mesmo tempo em que busca compensar esses gastos com cortes e ganhos de eficiência. Só neste ano, a empresa já demitiu mais de 16 mil funcionários.
O Google também tem adotado um discurso semelhante ao reforçar que a liberação de recursos internos é essencial para sustentar novos ciclos de investimento.
Para a diretora financeira Anat Ashkenazi, as demissões cumprem também um papel simbólico. Em meio a aportes bilionários em IA, cortes de custos ajudam a transmitir ao mercado a ideia de disciplina financeira. Mesmo que a economia gerada não seja suficiente para compensar os investimentos, a estratégia serve para demonstrar controle sobre gastos e compromisso com a rentabilidade.
Por Vitoria Lopes Gomez – Jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e pós-graduanda em Jornalismo Digital pela Faculdade Cásper Líbero. Atualmente, é redatora de Hard News.
*Texto publicado originalmente no Olhar Digital
(Foto: Reprodução/Freepik)


