Sul Global – A corrida global pela infraestrutura da inteligência artificial (IA) está redesenhando o mapa da economia digital. À medida que gigantes como Microsoft, Google e Amazon expandem seus complexos de computação em nuvem, países do Sul Global tornam-se peças estratégicas, oferecendo território, energia e incentivos fiscais em troca de promessas de investimento. No entanto, especialistas alertam que esse movimento pode estar criando “novas colônias digitais”.
Argentina e Brasil despontam como novos polos desse movimento. Nos últimos dois anos, anúncios bilionários multiplicaram-se. No Brasil, o governo federal e estados como São Paulo e Bahia celebraram a chegada desses centros como símbolos de modernização. Na Argentina, planos semelhantes avançam próximos a Buenos Aires e Córdoba. Contudo, o modelo adotado tende a aprofundar dependências tecnológicas.
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A lógica da inserção periférica
Embora o discurso oficial foque na atração de inovação, a prática revela uma lógica de inserção periférica: investimentos financiados externamente, com baixa exigência de conteúdo local e poucos efeitos de aprendizado tecnológico. Essa dinâmica repete padrões conhecidos em setores como mineração e energia. A diferença atual é que o “recurso” explorado inclui dados, eletricidade e infraestrutura.
Os impactos ambientais e estruturais são significativos. Data centers de IA demandam volumes colossais de energia e resfriamento; um único complexo pode consumir o equivalente ao abastecimento de uma cidade média. Em países onde o sistema elétrico já é pressionado, como Brasil e Argentina, essa demanda compete com o consumo residencial e industrial. A combinação de incentivos fiscais e tarifas subsidiadas acaba transformando essas instalações em “bolsões de privilégio energético”.
Desafios da soberania digital
Outro ponto crítico é a assimetria informacional e contratual. Acordos com multinacionais raramente incluem cláusulas de transparência ou compartilhamento de benefícios. Os dados processados localmente, incluindo dados públicos e de usuários nacionais, permanecem sob controle de sistemas proprietários sediados no exterior. Assim, os países hospedeiros fornecem o espaço e a energia, mas não capturam valor intelectual significativo.
O conceito de soberania digital é central para compreender essa armadilha. No Brasil, as políticas de transformação digital avançaram de forma fragmentada, sem uma estratégia articulada que exija, por exemplo, transferência de conhecimento ou parcerias com centros de pesquisa nacionais.
Existem modelos diferentes em curso. Países da Ásia e da Europa impõem condições regulatórias mais exigentes, como obrigações ambientais e limites ao controle estrangeiro sobre dados sensíveis. Na América Latina, Chile e Uruguai já incorporam elementos dessa agenda, associando incentivos fiscais à comprovação de benefícios tecnológicos e sustentabilidade.
Para Argentina e Brasil, a janela de oportunidade está aberta, mas a infraestrutura digital tornou-se um ativo estratégico comparável ao petróleo no século XX. Se a região optar por ser apenas receptora de capitais, consolidará sua posição como território de processamento, útil para as cadeias globais, mas marginal nos retornos econômicos.
A escolha atual é profundamente política: decidir se a nova economia digital será construída com ou sobre os países do Sul Global. Políticas coordenadas de soberania digital poderiam transformar esses data centers em motores de autonomia tecnológica e integração produtiva.
(Com informações de análise feita por Armando Alvares Garcia Júnior, para a The Conversation Brasil – via g1)
(Foto: Reprodução/Freepik/DC Studio)


