IA avança nos escritórios e passa a monitorar emoções de funcionários

Ferramentas de “emotion AI” já analisam expressões faciais, tom de voz e mensagens corporativas para estimar emoções de funcionários em tempo real

Emoções – A vigilância digital nas empresas está entrando em uma nova etapa. Depois de anos focadas em métricas como produtividade, tempo online e atividade em computadores, companhias começaram a adotar sistemas de inteligência artificial capazes de interpretar emoções humanas durante o expediente.

A chamada “emotion AI”, também conhecida como computação afetiva, utiliza algoritmos para analisar sinais comportamentais e tentar identificar estados emocionais de trabalhadores em tempo real. A tecnologia observa elementos como microexpressões faciais, tom de voz, ritmo da fala, escolha de palavras, padrões de escrita e comportamento em videoconferências.

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Na prática, o objetivo é transformar emoções em informações mensuráveis. Os sistemas tentam estimar se funcionários aparentam estar atentos, cansados, frustrados, motivados ou felizes enquanto trabalham.

O crescimento desse mercado foi acelerado pela pandemia e pela expansão do trabalho remoto. Com equipes distribuídas fora dos escritórios, empresas passaram a buscar novas formas de acompanhar desempenho e engajamento à distância. Primeiro vieram os softwares que monitoravam teclado, mouse e atividade digital. Agora, o foco parece migrar do volume de trabalho para o estado emocional demonstrado pelos profissionais.

Empresas como MorphCast, HireVue e Aware desenvolvem soluções desse tipo há anos. Algumas plataformas conseguem analisar videoconferências em tempo real para detectar sinais de atenção, entusiasmo ou estresse. Outras fazem leituras de mensagens internas e transcrições de chats corporativos para identificar o chamado “clima emocional” das equipes.

Há ainda ferramentas usadas em call centers que acompanham o tom de voz de atendentes durante ligações para tentar detectar irritação, ansiedade ou desmotivação. Segundo relatos do setor, companhias como MetLife, Burger King e McDonald’s já testaram ou utilizaram sistemas baseados nesse tipo de monitoramento emocional.

A indústria da emotion AI já movimenta cerca de US$ 3 bilhões no mundo e deve continuar crescendo até o fim da década. Empresas de tecnologia afirmam que as ferramentas podem ajudar na identificação de burnout, na melhoria do atendimento ao cliente, no aumento da produtividade e na detecção precoce de problemas internos em equipes.

Especialistas em privacidade e psicologia, porém, alertam para os riscos envolvidos. Um dos principais pontos de preocupação é que emoções humanas são complexas, subjetivas e influenciadas por fatores culturais, sociais e individuais. Uma mesma expressão facial pode ter significados completamente diferentes dependendo da pessoa ou do contexto.

Pesquisadores também destacam que fatores como ansiedade social, neurodivergência, cansaço ou diferenças culturais podem comprometer interpretações feitas por algoritmos. O receio é que empresas passem a tomar decisões baseadas em inferências emocionais potencialmente imprecisas.

O debate ganhou força porque essas tecnologias avançam sobre um território considerado extremamente íntimo: o estado emocional dos trabalhadores. Historicamente, o monitoramento corporativo se concentrava em comportamento externo e desempenho profissional. Agora, algumas empresas tentam interpretar sentimentos e estados psicológicos em tempo real.

Críticos classificam essa tendência como uma forma de vigilância emocional permanente dentro do ambiente corporativo.

Apesar das promessas feitas pelas empresas de tecnologia, pesquisadores afirmam que a ciência por trás da detecção automática de emoções ainda é controversa. Existe um debate intenso sobre até que ponto expressões faciais realmente conseguem revelar emoções internas de maneira universal e confiável.

Especialistas argumentam que muitos sistemas de emotion AI simplificam emoções humanas complexas em categorias limitadas e artificiais, criando interpretações que podem não refletir a realidade.

Mesmo assim, o avanço dessas ferramentas indica uma mudança profunda no ambiente de trabalho. Depois de transformar produtividade em dados, empresas agora tentam quantificar estados emocionais.

E essa talvez seja a parte mais sensível dessa nova fase: trabalhadores podem começar a sentir que não basta apenas desempenhar bem suas funções — também será necessário aparentar emocionalmente o estado considerado adequado diante de algoritmos que observam continuamente cada interação.

 

(Com informações de Gizmodo)

(Foto: Reprodução/Imagem gerada com IA)

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