Robôs – Durante anos, os smartphones ocuparam o centro da indústria global de tecnologia. Foi dentro deles que surgiram algumas das principais inovações do setor, como câmeras mais avançadas, chips de alto desempenho, sensores miniaturizados e baterias mais eficientes. Agora, porém, o cenário começa a mudar. A desaceleração nas vendas de celulares e a crescente demanda da inteligência artificial por componentes estratégicos estão levando fabricantes chinesas a buscar um novo motor de crescimento, e os robôs humanoides surgem como principal aposta.
A mudança ocorre em um momento em que o mercado global de smartphones permanece gigantesco, mas já não apresenta o mesmo ritmo de expansão que transformou companhias chinesas em gigantes industriais. Paralelamente, a inteligência artificial passou a exigir volumes cada vez maiores de memória RAM, chips especializados e capacidade de fabricação avançada, ampliando a disputa dentro da cadeia global de hardware.
LEIA: Fim da escala 6×1 alinharia Brasil aos países Ocidente, diz Financial Times
Nesse contexto, empresas chinesas começaram a reaproveitar a infraestrutura construída ao longo de décadas para a produção de celulares em uma nova direção: a robótica humanoide.
A adaptação não é tão distante quanto parece. Smartphones modernos já utilizam tecnologias muito próximas das necessárias para robôs avançados, incluindo sensores compactos, câmeras de alta precisão, sistemas de refrigeração, motores táteis, baterias de alta densidade energética e chips capazes de processar grandes quantidades de dados em tempo real.
Agora, parte desse ecossistema está sendo redirecionada para máquinas capazes de caminhar, manipular objetos e interagir fisicamente com ambientes e pessoas.
Segundo analistas da Counterpoint, o mercado de humanoides pode crescer de 16 mil unidades em 2025 para mais de 100 mil em 2027. Embora o volume ainda seja pequeno diante dos bilhões de smartphones vendidos anualmente, o avanço indica uma transformação mais profunda: a indústria chinesa já começa a se preparar para um novo ciclo tecnológico.
A transição deixou de ser apenas uma projeção. Empresas historicamente ligadas ao setor mobile passaram a investir diretamente em robótica.
Um dos principais exemplos é a Lingyi iTech, fornecedora associada durante anos à cadeia produtiva da Apple. A empresa firmou parceria com a AgiBot para desenvolver uma operação focada na montagem de robôs humanoides. O objetivo é ampliar a produção das atuais 10 mil unidades para 500 mil robôs até 2030.
O movimento reforça que os humanoides deixaram de ser tratados apenas como experimentos futuristas e passaram a integrar estratégias industriais de larga escala.
Outro episódio recente chamou atenção durante uma competição de autonomia robótica em Pequim. Um robô desenvolvido pela Honor conseguiu completar um percurso de 21 quilômetros superando concorrentes especializados em robótica.
Segundo os engenheiros envolvidos, parte do desempenho foi possível graças a um sistema de refrigeração derivado de tecnologias originalmente criadas para smartphones.
O caso evidencia como décadas de miniaturização e otimização desenvolvidas para celulares podem se transformar em vantagem competitiva na corrida pela robótica humanoide.
A Xiaomi também já iniciou testes com humanoides em suas fábricas de carros elétricos, utilizando robôs para automatizar tarefas industriais complexas. E especialistas avaliam que esse movimento ainda está em fase inicial.
Apesar do avanço, o desafio tecnológico continua elevado. Produzir smartphones em larga escala já exige cadeias industriais altamente sofisticadas, mas robôs humanoides aumentam significativamente o grau de complexidade.
Enquanto um celular pode apresentar falhas pontuais sem grandes consequências, um robô que interage fisicamente com pessoas precisa operar com níveis muito mais altos de precisão e confiabilidade. Pequenos erros mecânicos ou falhas de percepção podem gerar riscos relevantes.
Especialistas apontam que o maior obstáculo não está apenas em adaptar componentes de smartphones para robôs, mas em reconstruir processos industriais inteiros para atender padrões mais rígidos de segurança e desempenho.
Ainda assim, a China possui uma vantagem estratégica importante: o ecossistema de hardware mais integrado e flexível do mundo.
Por trás dessa transformação, o objetivo parece ir além da simples fabricação de robôs. O país busca consolidar domínio sobre a infraestrutura física da próxima fase da inteligência artificial.
Durante anos, a IA permaneceu concentrada em telas, aplicativos e servidores. Os humanoides representam uma nova etapa, na qual sistemas inteligentes passam a ocupar o espaço físico, circulando pelo mundo real, operando em fábricas, carregando objetos e convivendo diretamente com pessoas.
Nesse cenário, a migração da indústria de smartphones para a robótica humanoide não parece apenas uma resposta à desaceleração nas vendas de celulares.
Ela sinaliza uma tentativa de transformar décadas de liderança industrial em protagonismo na próxima grande revolução tecnológica, uma em que o hardware talvez deixe de caber no bolso e passe a caminhar ao lado das pessoas.
(Com informações de Gizmodo)
(Foto: Reprodução/Magnific)


