Setor público – As organizações governamentais vêm demonstrando um nível de maturidade em inteligência artificial (IA) acima do esperado. Apesar disso, os investimentos em tecnologias e estruturas de governança voltadas para uma IA confiável ainda estão abaixo do ideal. O cenário sugere que muitos órgãos públicos podem estar colocando em operação soluções sofisticadas sobre bases de dados vulneráveis, ampliando o risco de vieses, falhas de segurança e problemas operacionais com elevado custo. As constatações integram um relatório especial do SAS para o setor público, elaborado com insights de uma pesquisa do IDC intitulada Relatório do impacto dos dados e da IA: O imperativo da Confiança.
O estudo aborda o chamado “dilema da confiança”, situação em que as organizações deixam de utilizar plenamente soluções de IA confiáveis por falta de confiança ou, em sentido oposto, passam a depender excessivamente de sistemas que ainda não foram devidamente validados. Segundo o relatório, esse desalinhamento é observado em diferentes regiões do mundo e representa um obstáculo relevante para a adoção eficiente da IA no setor público. O levantamento analisa padrões de uso e investimento na tecnologia em diversos países e examina os avanços regionais na redução dessa lacuna de confiança. Embora o problema esteja presente em todos os segmentos avaliados, a natureza das atividades governamentais torna a confiança um requisito ainda mais crítico.
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“Para que o setor público possa confiar na IA, ela precisa gerar valor claro ao mesmo tempo em que protege o bem-estar dos cidadãos”, afirma Grant Brooks, vice-presidente sênior de Setor Público do SAS. “Transformar esse valor em benefícios reais para cidadãos e comunidades exige o alinhamento entre ambição e preparo em IA. Os resultados do relatório indicam que ainda temos trabalho a fazer para chegar lá.”
O relatório reúne análises específicas da América do Norte, Europa, América Latina, META (Oriente Médio, Turquia e África) e Ásia-Pacífico. O documento traz informações sobre infraestrutura de dados e inteligência artificial, níveis de adoção e maturidade, práticas relacionadas à IA confiável e uma avaliação aprofundada do chamado “dilema da confiança” em cada uma dessas regiões.
Equilibrando velocidade da IA e responsabilidade pública
Governos ao redor do mundo vêm incorporando a IA em ritmo acelerado. O uso de IA agêntica, por exemplo, já alcança 52% no setor público, percentual superior ao observado em áreas como bancos, saúde e varejo. Entretanto, o relatório destaca alguns sinais de alerta.
Somente 6% dos órgãos governamentais se enquadram na condição considerada “ideal”, caracterizada por elevada confiança interna na IA combinada a sistemas comprovadamente confiáveis. Trata-se da menor proporção registrada entre todos os setores analisados.
Além disso, 38% das organizações governamentais apresentam simultaneamente baixa adoção de mecanismos de proteção voltados para IA confiável e uma dependência excessiva dessas tecnologias. O estudo também aponta que um número significativo dessas instituições demonstra elevada confiança em sistemas que ainda apresentam limitações de confiabilidade, como a IA generativa.
Os dados revelam ainda que os gestores públicos depositam mais confiança na IA generativa do que em soluções baseadas em machine learning (ML). Isso ocorre mesmo com o aprendizado de máquina sendo utilizado há anos em atividades consolidadas, como auditorias tributárias e identificação de fraudes. A preferência chama atenção por envolver uma tecnologia menos transparente e mais suscetível a erros.
Quando analisado o desempenho em iniciativas de IA confiável, o setor público aparece atrás de segmentos como seguros, bancos e ciências da vida. Apenas 15,3% das organizações governamentais atingem o nível mais alto do Índice de Confiabilidade da IA apresentado pelo estudo, abaixo da média global de 19,8%. O levantamento também mostra que a expectativa de novos investimentos em IA confiável é menor entre órgãos públicos do que entre instituições financeiras e seguradoras.
“Órgãos governamentais estão avançando rapidamente da experimentação ao uso operacional da IA, mas a confiança não pode ser presumida, especialmente quando os sistemas impactam resultados públicos”, afirma Chris Marshall, vice-presidente de Dados, Analytics, IA, Sustentabilidade e Pesquisa setorial do IDC. “Sem bases de dados robustas e governança clara, a confiança na IA pode crescer mais rápido do que sua confiabilidade, aumentando os riscos para cidadãos e instituições.”
Reduzindo a lacuna de confiança em IA no setor público
Embora alguns governos estejam conseguindo incorporar práticas voltadas para IA confiável, a maior parte ainda enfrenta desafios relevantes relacionados à centralização de dados, governança e capacitação profissional. Essas limitações dificultam o aproveitamento pleno do potencial da tecnologia.
O estudo mostra que o grau de preparação e as capacidades em IA variam entre as regiões analisadas, mas algumas tendências se repetem. Em todas elas, a ausência de uma base de dados centralizada ou otimizada aparece como o principal entrave para a implementação da inteligência artificial.
A falta de governança de dados surge como o segundo maior desafio na maioria das regiões avaliadas. A exceção é a América Latina, onde o tema ocupa a quarta posição entre os principais obstáculos identificados.
Apesar das dificuldades, as perspectivas de investimento seguem positivas. Segundo o relatório, 12,6% das organizações governamentais esperam ampliar seus aportes em IA em mais de 20% nos próximos 12 meses, enquanto quase metade projeta aumentos entre 4% e 20%. A busca por maior eficiência e efetividade operacional é apontada como o principal caminho para geração de valor com a tecnologia. Além disso, mais de 60% dos entrevistados mencionam ganhos de produtividade individual, o maior índice registrado entre todos os setores pesquisados.
Outro dado relevante é que o setor público foi o único em que os participantes identificaram mais lacunas de competências entre os funcionários em geral do que entre equipes técnicas especializadas. Diante desse cenário, os governos vêm direcionando investimentos tanto para a modernização de sua arquitetura tecnológica quanto para a capacitação de sua força de trabalho.
“Independentemente da região, muitas organizações do setor público têm planos ambiciosos para expandir o uso de IA nos próximos anos”, afirma Ravi Kant Sharma, diretor de pesquisa, Government Insights do IDC Ásia-Pacífico. “O relatório mostra que elas também reconhecem seus desafios. Investir no equilíbrio certo entre infraestrutura e tecnologias confiáveis será decisivo para implementações bem-sucedidas de IA.”
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(Foto: Reprodução/Magnific/DC Studio)


