Soberania Nacional – O Brasil chega ao segundo turno das eleições presidenciais diante de uma escolha que terá consequências profundas para o futuro do país, para a democracia e para os direitos dos trabalhadores. Como representantes dos profissionais de tecnologia da informação, temos a responsabilidade de avaliar essa disputa à luz dos interesses da categoria que representamos.
É com esse espírito, sem abrir mão da nossa independência e da capacidade de cobrar qualquer governo, que a diretoria do Sindpd manifesta seu posicionamento em defesa da reeleição do presidente Lula e da derrota da extrema-direita.
Para os trabalhadores de tecnologia, essa escolha envolve uma questão fundamental: não existe soberania nacional sem soberania digital e tecnológica. Um país que não controla suas infraestruturas digitais, depende integralmente de tecnologias estrangeiras e abdica da capacidade de desenvolver suas próprias soluções compromete sua autonomia econômica e política.
O Brasil precisa investir em pesquisa, inovação, inteligência artificial, segurança cibernética e infraestrutura digital. Precisa fortalecer suas empresas, universidades e centros de pesquisa, garantindo que os avanços tecnológicos produzam desenvolvimento, empregos qualificados e melhores condições de vida.
Não podemos aceitar que o Brasil seja apenas consumidor de tecnologias desenvolvidas no exterior ou refém dos interesses das Big Techs. Precisamos ser protagonistas da transformação digital, com um Estado capaz de planejar, investir e defender os interesses nacionais.
Também é necessário reconhecer os avanços concretos obtidos pelos trabalhadores nos últimos quatro anos. A ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais, a retomada da política de valorização real do salário mínimo e a aprovação da Lei de Igualdade Salarial entre Mulheres e Homens representam conquistas importantes.
No plano internacional, a atuação brasileira nas discussões da Organização Internacional do Trabalho sobre os direitos dos trabalhadores de plataformas digitais reforça um princípio que defendemos: a inovação tecnológica não pode servir de justificativa para retirar direitos ou precarizar relações de trabalho. O mesmo vale para o debate sobre a redução da jornada e o fim da escala 6×1. Os ganhos de produtividade proporcionados pelas novas tecnologias precisam ser compartilhados com os trabalhadores, na forma de melhores salários, jornadas menores e mais qualidade de vida.
Na nossa categoria, conhecemos o valor da organização coletiva. Em 2025, o Sindpd alcançou cerca de 1,5 mil acordos de Participação nos Lucros e Resultados (PLR), beneficiando mais de 110 mil trabalhadores. São números históricos, resultado de negociação, mobilização e de uma Convenção Coletiva de Trabalho construída ao longo de décadas.
Também não esquecemos o que enfrentamos durante o governo Bolsonaro. O movimento sindical foi alvo de uma política de enfraquecimento que estimulou setores patronais a questionar direitos, dificultar negociações e tentar retirar conquistas asseguradas em nossa Convenção Coletiva. Sentimos na pele os efeitos dessa orientação política e sabemos que o ambiente institucional faz diferença na defesa dos trabalhadores.
Isso não significa ignorar os problemas do atual governo. Por isso, nossa posição não representa um cheque em branco. Defendemos a reeleição de Lula com a mesma independência com que sempre cobramos seu governo.
Para os próximos quatro anos, consideramos indispensável avançar em uma nova atualização da tabela do Imposto de Renda, ampliando a justiça tributária para os assalariados. Defendemos também a isenção do Imposto de Renda sobre a PLR, o combate efetivo à pejotização fraudulenta, o fortalecimento da negociação coletiva e políticas de qualificação e valorização dos profissionais de tecnologia.
O crescimento do setor não pode ser acompanhado pela precarização dos vínculos de trabalho. A transformação digital precisa estar associada à geração de empregos de qualidade, à proteção social e ao reconhecimento daqueles que produzem a riqueza.
Mas há uma dimensão desta eleição que ultrapassa as divergências sobre políticas econômicas. As ameaças às instituições democráticas, os ataques ao processo eleitoral, os questionamentos seletivos e as propostas de reformulação constitucional defendidas por representantes da extrema-direita exigem atenção e responsabilidade.
A Constituição de 1988 assegurou direitos fundamentais, como férias remuneradas, décimo terceiro salário, limites à jornada e proteção aos trabalhadores. São conquistas civilizatórias que não podem ser colocadas em risco sob hipótese alguma. Também não podemos admitir a normalização do racismo, da misoginia, da intolerância e de qualquer forma de discriminação.
Nossa posição não nasce de uma adesão partidária, tampouco da avaliação de que todos os problemas nacionais foram resolvidos. Reconhecemos as limitações e contradições do atual governo. Entretanto, não podemos tratar como equivalentes projetos políticos que apresentam diferenças profundas em relação à democracia, aos direitos sociais e ao papel do Estado no desenvolvimento nacional.
A continuidade do governo Lula oferece condições mais favoráveis à defesa dos direitos trabalhistas, ao diálogo social e à construção de um projeto nacional de desenvolvimento tecnológico e industrial.
Os trabalhadores de tecnologia da informação ocupam uma posição estratégica nesse processo. Somos nós que desenvolvemos sistemas, criamos soluções, protegemos dados, sustentamos serviços essenciais e ajudamos a movimentar uma economia cada vez mais digitalizada. Nosso trabalho está presente nos bancos, nos hospitais, nas escolas, nas indústrias, nos serviços públicos e em praticamente todas as atividades econômicas.
Não podemos aceitar que o país avance tecnologicamente enquanto retrocede nos direitos trabalhistas, na distribuição de renda e nas liberdades democráticas. Não queremos uma transformação digital que concentre riqueza nas mãos de poucos, substitua empregos sem oferecer alternativas ou utilize algoritmos e novas formas de contratação para enfraquecer a proteção dos trabalhadores.
Nossa independência permanece inegociável. Nossa disposição de cobrar, negociar e lutar pelos trabalhadores também.
Neste segundo turno, convocamos os profissionais de tecnologia da informação a refletirem sobre o país que queremos construir e a importância de sua participação democrática. O futuro da tecnologia brasileira não depende apenas dos sistemas que desenvolvemos, das inovações que criamos ou das soluções que entregamos diariamente. Depende também das decisões políticas que definirão se o Brasil será protagonista do próprio desenvolvimento ou permanecerá subordinado aos interesses de outros países e de grandes corporações.
O movimento sindical brasileiro conquistou direitos enfrentando autoritarismos, resistindo a retrocessos e defendendo a democracia. Não podemos abrir mão dessa história.
No dia 25 de outubro, defendemos o voto pela democracia, pela soberania nacional e pelos direitos dos trabalhadores. Pela valorização dos profissionais de tecnologia, por um Brasil desenvolvido, justo e soberano e pela derrota da extrema-direita, nossa posição é pela reeleição do presidente Lula.
Antonio Neto
Presidente do Sindpd-SP
Emerson Morresi
Presidente da FENATI


