Tráfego invisível de bots começa a colocar preço no conteúdo da web - Foto: Reprodução/Magnific

Milhões de acessos invisíveis revelam o avanço de bots na internet

Análise revela que sistemas de inteligência artificial podem gerar um volume de acessos muito maior do que o registrado pelas ferramentas convencionais

Bots – Nick Gray, Criador do PatronView, uma plataforma que reúne aproximadamente 1,5 milhão de perfis relacionados à filantropia nos Estados Unidos, passou cerca de um ano analisando os registros de acesso do próprio servidor.

A investigação revelou uma diferença expressiva entre o conteúdo entregue pelos servidores e aquilo que as ferramentas tradicionais de analytics registravam como visitas humanas. Em apenas uma semana, o servidor recebeu cerca de 2,5 milhões de solicitações externas e entregou 1,28 milhão de páginas completas.

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As ferramentas de análise, porém, contabilizaram somente 5.977 visualizações. Na prática, para cada página registrada como uma visita, aproximadamente outras 214 páginas haviam sido entregues pelo servidor sem aparecer nas estatísticas convencionais.

Isso não significa que 99% de toda a internet seja composta por robôs ou que todas as solicitações tenham sido feitas por sistemas de inteligência artificial. O tráfego identificado incluía mecanismos de busca, ferramentas de SEO, scrapers, crawlers de IA e diferentes redes automatizadas.

Quando os números não mostram toda a audiência

Uma das razões para essa diferença está na forma como muitas ferramentas de analytics funcionam. Elas dependem de mecanismos executados no navegador, como JavaScript, para registrar uma visita.

Um bot, por outro lado, pode simplesmente solicitar uma página diretamente ao servidor, receber seu conteúdo e encerrar a conexão sem produzir o mesmo tipo de registro deixado por um usuário humano.

Ao separar os diferentes tipos de tráfego, Gray encontrou casos que chamaram ainda mais atenção.

Entre eles estava o Claude-SearchBot, rastreador utilizado pela Anthropic para funções relacionadas à busca do Claude. Em apenas uma semana, o crawler solicitou cerca de 420.680 páginas do PatronView.

No mesmo período, Gray registrou apenas 12 acessos associados ao Claude-User. Isso significa que, para cada usuário encaminhado ao site, o rastreador havia solicitado aproximadamente 35 mil páginas.

Diante do volume, Gray decidiu bloquear o Claude-SearchBot pelo firewall. Segundo os registros da plataforma, as solicitações caíram de aproximadamente 60 mil por dia para apenas algumas dezenas de tentativas depois do bloqueio.

Outro caso envolveu a Amazon. O Amzn-SearchBot chegou a realizar cerca de 117 mil solicitações diárias no período analisado, sem que Gray identificasse visitantes correspondentes vindos desse rastreador.

Bots também podem tentar parecer usuários

O problema se torna mais complexo quando o tráfego automatizado não se apresenta claramente como um bot.

Em abril de 2026, o PatronView recebeu aproximadamente 3,6 milhões de solicitações em apenas um dia, vindas de mais de 361 mil endereços IP. A maior parte estava localizada na China.

Na investigação, Gray identificou navegadores Chrome automatizados hospedados em serviços de nuvem como AWS e Azure, além de conexões distribuídas por proxies residenciais.

Esse tipo de proxy dificulta a identificação porque a solicitação pode aparentar ter origem em uma conexão doméstica comum, em vez de partir diretamente de um grande centro de dados.

Para tentar controlar esse tráfego, o PatronView passou a combinar bloqueios geográficos, limites de velocidade, identificação de data centers e CAPTCHA.

Em determinado período de 48 horas, o Cloudflare apresentou 106.437 desafios para visitantes suspeitos. Apenas 252 foram concluídos, o equivalente a uma taxa de aproximadamente 0,24%.

Além do impacto técnico, a atividade automatizada também trouxe consequências financeiras. O PatronView normalmente gastava cerca de US$ 90 por mês com infraestrutura. Durante um dos períodos de maior atividade automatizada, porém, a conta teria aumentado aproximadamente 500%.

Um novo debate sobre quem paga pelo rastreamento

O caso começa a colocar em questão um modelo que acompanhou a internet durante décadas.

Tradicionalmente, permitir que mecanismos rastreassem uma página era vantajoso para os sites porque o processo de indexação poderia resultar em novos visitantes. Com a expansão dos sistemas de inteligência artificial, entretanto, determinados crawlers podem consumir grandes quantidades de conteúdo sem necessariamente devolver tráfego equivalente aos proprietários.

A Cloudflare apresentou o Pay Per Crawl, sistema que permite aos proprietários de sites escolher entre permitir determinadas solicitações, bloqueá-las ou exigir pagamento de alguns crawlers. A proposta utiliza inclusive o código HTTP 402, tradicionalmente associado a “Payment Required”.

A discussão vai além do custo de um servidor específico. Ela envolve a própria infraestrutura que sustenta a nova economia da inteligência artificial e a definição de quem deve arcar com os recursos utilizados para coletar grandes volumes de conteúdo.

O caso do PatronView não demonstra que a maior parte da internet seja formada por máquinas. Ele evidencia algo mais específico: uma quantidade enorme de atividade automatizada pode ocorrer diretamente nos servidores sem aparecer nas estatísticas que os proprietários normalmente acompanham.

Para quem administra um site, isso significa que os números exibidos no painel de analytics podem representar apenas uma parte da atividade real.

E, à medida que buscadores, agentes, scrapers e sistemas de inteligência artificial passam a explorar a web em escala cada vez maior, a pergunta pode deixar de ser apenas “quantas pessoas estão lendo meu site?” e passar a incluir também quanto conteúdo está sendo consumido por máquinas e quem deve pagar por isso.

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(Com informações de Gizmodo)

(Foto: Reprodução/Magnific)

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